Mais do que contribuirem para a preservação
da natureza com a reciclagem de papel, dez jovens da periferia de
São Bernardo, entre 17 e 22 anos, recuperaram a auto-estima
e des-cobriram o espírito empreendedor. Eles integram o grupo
produtivo do Araçari, projeto da Pré-feitura de São
Bernardo que, além do apelo ecológico, visa a inclusão
social e a geração de renda. Blocos de anotação,
porta-retratos, porta-canetas, marca páginas, cartões
de visita, vasos, álbuns de fotografias, luminárias,
flores e embalagens de presentes, entremeados à casca de
cebola, fibra de coco e sisal, são fabricados, artesanalmente,
para venda no varejo ou no atacado. Na lista de clientes, entidades
e empresas renomadas, como a Fundação Espaço
Eco, organização não-governamental instituída
pela Basf, e a Vega Engenharia Ambiental.
"É uma forma de incentivar e conscientizar
as pessoas da necessidade de reciclar os mais variados materiais,
além de apoiar o projeto dos jovens", afirma Rafael
Luiz Marquezi, que coordena o programa interno de coleta seletiva
da Vega, unidade São Bernardo, consumidora dos produtos do
Araçari. A empresa premia, mensalmente, os funcionários
que se destacam nesse processo de preservação ambiental.
A última compra foi de porta-canetas que imitam os 203 ecopontos
– depósitos de lixos recicláveis espalhados por vários
bairros do município -, e carrinhos de varrição
com bloco de anotação. A empresa de limpeza urbana
é quem executa para a Prefeitura os serviços de coletiva
seletiva; coleta domiciliar; varrição de vias; lavagem
de feiras livres; remoção de entulhos de obras públicas
e coleta dos móveis velhos da Operação Bota-Fora
Desde 2005, a Fundação Espaço
Eco, no bairro Botujuru, em São Bernardo, utiliza-se dos
produtos frutos da reciclagem de papel. Desde blocos de anotação
e pastas para seminários até a confecção
de crachás e cartões de Natal. "O Projeto Araçari
tem tudo a ver com as nossas atividades voltadas para a área
de educação ambiental, reflorestamento e de cunho
social. Estamos satisfeitos com o resultado", diz Jaqueline
Masetto, da ONG de desenvolvimento sustentável inaugurada
há dois anos pela Basf.
Além das empresas nacionais, a exportação,
mesmo que timidamente, também chegou ao Projeto Araçari
no Jardim Nossa Senhora, região do bairro Demarchi, onde
funciona a ofi-cina de reciclagem de papel e um showroom para venda
direta ao consumidor. Uma enco-menda de 300 caixas para camisetas,
com a Bandeira do Brasil, foi remetida para a Suécia. E outra
de embalagens para vinhos teve como destino a Alemanha.
Na linha de produção de quase 50
itens, jovens simples e de famílias humildes, porém
trabalhadores, responsáveis, perseverantes e sonhadores.
É o caso de Kelly Rufino Costa, 22 anos, moradora no bairro
Botujuru, que há quatro anos integra o Projeto Araçari
e pensa em fazer medicina. Seu pai aguarda na fila por um transplante
de rim. Enquanto não chega, enfrenta sessões de hemodiálise.
A jovem, que já concluiu o ensino médio, conta sua
história sem rodeios. Paralelamente, não dá
trégua para concluir a encomenda de pastas feita pela Fundação
Espaço Eco, ligada à Basf. "O dinheiro que ganho
das vendas repasso para meus pais", afirma Kelly, que possui
mais seis irmãos.
Além de contribuir para a renda familiar,
o Araçari deu um novo horizonte para Kelly. "Aprendi
coisas novas aqui, como reciclar o papel, além de distrair
a cabeça", diz a jovem. "O convívio em grupo
para a Kelly foi muito importante", afirma Cristina Olinda
Granha Lopes, uma das coordenadoras do projeto de inclusão.
Desde que foi implementado em 1998, o programa atraiu cerca de 180
jovens. Porém, nem todos investiram no grupo produtivo.
Não é o caso de Aline Teles Feitosa,
18 anos, moradora no bairro Batistini, que se juntou ao grupo há
dois anos. Primeiramente, a jovem, como todos os outros nove integrantes,
passou pelo curso de reciclagem e artesanato em papel, oferecido
gratuitamente pela Secretaria de Desenvolvimento Social e Cidadania
aos moradores de São Bernardo, a partir de 16 anos. "Me
chamou a atenção o fato do reaproveitamento do papel,
dos diferentes tipos de tingimento e o uso de cascas de cebola e
de alho, por exemplo, para efeitos de decoração",
afirma Aline, que agora não mais mistura lixo orgânico
na sua casa com materiais recicláveis, como vidros, plásticos
e papel. Aliás, as fibras orgânicas e folhas, como
o coco e chá em saquinho, dão texturas e efeitos diversificados
aos produtos, a partir da reciclagem.
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A lição
de casa foi levada também para os amigos. "Eu explico
que não podemos amassar ou fazer bolinhas com o papel,
porque perde a consistência e a fibra. O ideal é
rasgar ou dobrar para não danificá-lo", ensina
Aline. Todo material (como papel sulfite e aparas) utilizado no
Araçari é proveniente de todos os setores da Prefeitura,
além de empresas e condomínios comerciais e residenciais
da cidade parceiros. Dois centros municipais de ecologia e cidadania
são responsáveis pelo armazenamento do papel, que
totaliza cerca de 20 mil toneladas por mês – parte é
utilizado pelos jovens, de acordo com a assistente social Dalva
Pinheiro de Almeida Pagani, da equipe coordenadora do projeto.
Para Valberlange Cosme
de Meneses, 18 anos, do bairro Batistini, que divide a casa com
os pais, mais sete irmãos e o sobrinho de oito meses, o
projeto, além de ajudar na renda familiar e valorizar sua
auto-estima, trouxe serviu de ponte para conhecer a namorada Bethel,
que não mais faz parte do Araçari.
Benefícios – A renda
das vendas é dividida entre os dez artesãos, que
possuem uma conta conjunta bancária, de acordo com Sandra
Regina Costa de Barros, professora de apoio ao Projeto Araçari.
Os jovens empreendedores recebem ainda como benefícios:
vale alimentação, vale transporte e lanche – a produção
é diária e, em média, são fabricadas
40 folhas de papel reciclado, matéria-prima para a confecção
dos itens. Alguns deles, maiores de 18 anos, são cadastrados
na Sutaco (Superintendência do Trabalho Artesanal nas Comunidades),
o que possibilita a emissão de nota fiscal. "Nossa
maior fonte são as encomendas das empresas. Por isso, novos
parceiros são bem-vindos", ressalta Aline.
O Projeto Araçari
é dividido em três fases distintas. A primeira trabalha
a formação do aluno, com noções de
ética e cidadania. A profissionalização é
a etapa seguinte, na qual a pessoa aprende a reciclar o papel
(picar, tingir, textura) e transformá-lo em produtos artesanais,
como blocos e porta-retratos.
Já o grupo produtivo
visa às ações empreendedoras, desde a produção
dos itens para venda até a contribuição com
o meio ambiente. O objetivo é a geração de
renda e fazer com que o jovem busque sua autonomia. O Araçari
se baseia na política dos quatro Rs (Reeduque, Reduza,
Reutilize e Recicle), que faz parte do Programa Lixo & Cidadania,
também assinado pela Prefeitura.
E foi por um desses cursos
de qualificação que passou a artesã de bijuteria
de saquinho de papel de pão Ariane Justino da Silva, 22
anos, hoje instrutora da Prefeitura.
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