Bromélia salva da extinção volta para casa

 

Quase dois anos depois de ser localizada pelos pesquisadores do Instituto de Botânica de São Paulo que atuam no projeto de resgate de flora criado pela Dersa para proteção das espécies localizadas no trecho sul do Rodoanel, em construção, a bromélia Tillandsia linnearis está sendo devolvida à natureza.

Investimentos

No segundo semestre de 2007 ela foi encontrada na Estrada das Veredas, na várzea do rio Embu-Mirim, no município de Embu das Artes, na frente de trabalho do lote 5 do trecho Sul do Rodoanel.
Até então, foram mais de 40 anos sem informações sobre a ocorrência dessa bromélia, cujo nome correto é Tillandsia linearis Vell que floresce uma vez por ano e que já era considerada “presumivelmente extinta”, pela Resolução SMA 48/2004 (lista de espécies ameaçadas de extinção).
Segundo pesquisadores do Instituto, não há ainda uma explicação de como a Tillandsia linearis chegou ao ponto de ser considerada extinta. Entre as hipóteses prováveis estão as mudanças do habitat natural, do próprio ecossistema ou até do clima, além da ação de mateiros, que costumam retirar bromélias de seu habitat natural para vendê-las como plantas ornamentais em beira de estrada.
Agora, o trabalho dos especialistas é levar a bromélia de volta para casa, ou seja, ela começa a ser reintroduzida em seu habitat natural, em áreas de preservação estabelecidas no projeto, que incluem cinco parques às margens do Rodoanel e em remanescentes florestais próximos aos locais de onde foram retiradas, por corte da supressão vegetal.
Atualmente, o Instituto de Botânica tem como objetivo também reproduzir estas bromélias em laboratórios para que sejam usadas em projetos ornamentais evitando que elas sejam retiradas da natureza e com isto preservá-las nos locais de ocorrências.

Um trabalho de várias etapas

Na frente de obras do trecho sul do Rodoanel foram encontrados cerca de 200 tufos, cada um contendo uns 10 exemplares da Tillandsia linearis.
Os exemplares foram resgatados e colocados em viveiros de espera, construídos no Lote 5. Cento e oitenta tufos foram realocados em parques da região de Embu e em matas próximas do seu local de origem.
Vinte tufos vieram para o Instituto de Botânica, sendo dois incluídos nas coleções vivas do Jardim Botânico (área de visitação), três para a coleção viva da Seção de Ornamentais e 15 destinadas para o desenvolvimento de pesquisas científicas na Seção de Ornamentais.
As pesquisas científicas estão sendo desenvolvidas por uma equipe coordenada pela bióloga Vívian Tamaki’. ”Estamos pesquisando o cultivo in vitro de 30 sementes e acompanhando alguns aspectos fenológicos como época de floração, quantidade de frutos formados, quantidade de sementes (tendo como controle alguns exemplares localizados in situ) e formação de brotos.
Estamos avaliando a propagação em Casa de Vegetação (até o momento conseguimos 120 exemplares propagados) e desenvolvendo trabalhos com adubação e substrato”, diz a doutora Vívian..

O procedimento para realocação observou vários requisitos.

Os locais escolhidos são semelhantes aos habitats de origem. Primeiro, os pesquisadores do IBt observaram que elas crescem em áreas expostas ao sol direto e próximas de lagos ou rios (locais com bastante umidade). De posse desses conhecimentos, escolheram em quais árvores realocar, levando em consideração a presença de água nas proximidades (como lagos, rios, etc), a quantidade de luminosidade (área de sol) e a forma de fixação nas árvores (amarrar na base da planta, para não danificar o meristema).
Mensalmente, os exemplares realocados são acompanhados, quanto ao seu crescimento, a formação de flores, a fixação nas árvores, etc. Segundo Vivian Tamaki, já é possível conhecer alguns resultados do processo. “A readaptação foi muito boa, visto que apenas 10% morreram, sendo esta a porcentagem também observada para as outras plantas realocadas pelo Projeto Rodoanel”.
O trabalho de acompanhamento das realocadas vai até final de 2010 e início de 2011, pois os especialistas consideram que é necessário um acompanhamento de pelo menos 2 anos para alguns indivíduos espécies, que começaram a ser realocadas no final de 2008.

Respeitando a Biodiversidade

A descoberta da Tillandsia linearis foi valiosa para o desenvolvimento de trabalhos visando a sua conservação, devido à importância de se preservar o material genético, visto que não há estudos com esta espécie, ou seja, não se conhece todo o seu potencial (ecológico, ornamental, etc). Mas o trabalho pioneiro de conhecimento, resgate e replantio de espécies, desenvolvido pela Dersa e IBt durante as obras do trecho sul do Rodoanel, permitiu que outras preciosidades fossem encontradas, contribuindo de forma muito significativa para o resgate da biodiversidade da região.
Entre as espécies resgatadas que tiveram repercussão favorável na comunidade científica, estão também:

- Catlleya loddigesii, orquídea também classificada como “quase ameaçada” de extinção devido ao alto extrativismo e a perda do seu habitat natural. Esta espécie foi encontrada com grande número de exemplares ao longo de todo o Rodoanel
- Zygopetalum maxillare, outra orquídea também ameaçada de extinção e encontrada nos trechos de supressão de vegetação autorizada para as obras
- Lytocaryum hoehnei, uma espécie de palmeira considerada como “quase ameaçada” e listada no Livro Vermelho das Espécies Ameaçadas do Estado de São Paulo. A palmeira, caracterizada pela sua cor prateada na face inferior da folha pode atingir até 3 metros de altura
E ainda espécies arbóreas ameaçadas de extinção como: Trichilia lepidota Cupania furfuraceae e a Ocotea odorifera esta última conhecida popularmente como canela sassafrás.
“Por tudo isso, fica demonstrada a importância e o cuidado que se deve ter quando se faz um Estudo de Impactos Ambientais (EIA). No caso do trecho sul, várias espécies que não se imaginava encontrar na região, reforçaram a afirmativa de que a mesma é muito mais rica em biodiversidade do que se imaginava anteriormente”, afirma Luiz Mauro Barbosa, pesquisador do IBt e coordenador do Projeto.
As sementes colhidas na região pelo Programa de Reflorestamento desenvolvido pela DERSA com orientação do IBt, complementam os cuidados com a conservação da biodiversidade (específica e genética), já que elas darão origem à mudas florestais para posterior utilização nos 1016 ha a serem restaurados como compensação ambiental do empreendimento.

Serviço

Quem quiser conhecer a Tillandsia linearis de perto pode ir ao Jardim Botânico, onde estão 20 exemplares da bromélia.
As visitas são abertas ao público de terça a domingo e feriados, das 9 às 17 horas, maiores informações no site www.ibot.sp.gov.br ou (11) 5073-6300.

 


 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
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