História
da Imigração Japonesa
no Brasil 1908 - 2008
3ª Parte |
|
|
|
A partir de 1920, com a ampliação
do sistema de colonização de terras virgens no interior
de São Paulo, o fluxo de imigrantes japoneses para o Brasil
acelerou-se. Embora os imigrantes se dedicassem principalmente à
atividade agrícola, os japoneses fundaram cidades como Bastos
e Tietê, que hoje são importantes polos urbanos regionais
do interior paulista, fundadas em 1928. Outras cidades, como Iguape
e Registro no litoral sul paulista, concentraram muitas colônias
de imigrantes desde 1917, e cresceram com a produção
agrícola implementada pelos japoneses, especialmente no cultivo
da banana e do chá. Já no interior os japoneses dedicaram-se
a outros produtos, principalmente ao café e ao algodão,
que na época era muito valorizado por ser matéria-prima
básica da indústria têxtil. Em 1929 os primeiros
japoneses desbravadores da região amazônica instalaram-se
em Acará, no Pará (atual Tomé-Açú).
No mesmo ano outras colônias foram assentadas no Paraná
(Londrina) e em Goiás (Anápolis). Também naquele
ano a Quebra da Bolsa de Nova York causou uma forte desvalorização
do café brasileiro no mercado internacional, o que afetou
muitos imigrantes. Aquela crise, acrescida do fato de que a população
urbana no Brasil passou a crescer, levou muitos japoneses a se dedicarem
ao plantio de arroz, feijão, batata e tomate para abastecer
as cidades.
|
|
|
A imigração japonesa
para o Brasil, apesar do apoio governamental, era essencialmente
realizada por empresas privadas, entre as quais destacou-se a Kaigai
Ijuu Kumiai Rengokai (Confederação das Cooperativas
de Emigração) no Japão, fundada em 1927, e
sua filial brasileira, a Bratac (contração de Brasil
Takushoku Kumiai Ltda., ou "Sociedade Colonizadora do Brasil").
Em 1932 o Consulado Geral do Japão em São Paulo divulgou
que 132.689 japoneses já haviam imigrado, e que mais 25 mil
e 800 pessoas já tinham autorização para entrar
no país no ano seguinte. Entretanto, desde 1930 o Brasil
estava sendo comandado por Getúlio Vargas, militar que tomou
o poder num golpe de estado, implantando um regime autoritário
populista batizado de Estado Novo. A simpatia do governo novo por
líderes autoritaristas europeus da época, como Mussolini
e Hitler, refletiu-se no Brasil na forma de discussões a
partir de 1932 visando baixar normas para restringir a entrada de
imigrantes japoneses no país.
|
|
|
| |
|
|
No período anterior à
2ª Guerra Mundial (1939-1945), os imigrantes japoneses tinham
comportamento e valores parecidos com os dos atuais dekasseguis
(brasileiros que emigram para o Japão a trabalho). Os imigrantes
não vinham com o intuito de permanecer para sempre na nova
pátria, mas o de economizar e voltar em alguns anos para
a terra natal. Isso fez com que muitas famílias de imigrantes
adotassem estilos de vida espartanos, até mesmo avaros, o
que na época gerou um dito popular de que se podia "reconhecer
o sítio de um japonês pela beleza de suas plantações
e pela miséria de sua casa". E como a intenção
era de retornar ao Japão, os imigrantes faziam muita questão
de que seus filhos fossem educados como japoneses e que freqüentassem
escolas japonesas. Em 1938 haviam em São Paulo 294 escolas
japonesas (a título de comparação, haviam 20
escolas alemãs e 8 italianas). Mas haviam sinais de que muitos
imigrantes já tinham o intuito de adotar o Brasil como nova
pátria definitiva. O primeiro e mais claro sinal foi o início
da construção do Nippon Byoin (Hospital Japão),
atual Hospital Santa Cruz em São Paulo, em 1936. No mesmo
ano um manifesto escrito por Kenro Shimomoto, primeiro advogado
nipo-brasileiro, reconhecendo o Brasil como sua pátria, gerou
polêmica na comunidade. |
|
|
O agravamento das relações
políticas na Europa e a iminência de uma grande guerra
teve reflexos imediatos sobre as comunidades de imigrantes no Brasil.
A partir do Natal de 1938 todas as escolas de língua japonesa,
alemã e italiana foram obrigadas a fechar as portas, e o
ensino desses idiomas proibido. Até 1939, ano em que a 2ª
Guerra Mundial começou na Europa, o conflito gerou poucos
efeitos imediatos sobre as comunidades de imigrantes
Escola Promissão
mas a partir de 1941, quando os Estados Unidos
entraram na Guerra, o Brasil optou por uma postura de colaboração
crescente com os americanos e as restrições aos imigrantes
das nações inimigas endureceram.A publicação
de jornais em japonês foi proibida pelo governo brasileiro,
e os Correios suspenderam os serviços entre Brasil e Japão.
A imigração de japoneses ao Brasil foi proibida, e
o navio Buenos Aires Maru, que chegou ao país em 1941, foi
o último de um ciclo iniciado pelo Kasato Maru.
Literalmente do dia para a noite os imigrantes
japoneses passaram a ser alvo de suspeita, perseguição
e preconceito. Comunidades inteiras de imigrantes que viviam nas
cidades, em especial em Santos e São Paulo, receberam ordem
de evacuação - em menos de 6 horas famílias
foram retiradas de suas casas e enviadas a fazendas de isolamento
no interior. Imóveis, dinheiro e quaisquer bens de valor
dos imigrantes foram tomados para "posterior inclusão
no fundo de indenização de guerra". O Banco América
do Sul e o Hospital Santa Cruz, fundados pelos imigrantes japoneses,
tiveram suas diretorias afastadas e passaram a ser administrados
por interventores nomeados pelo governo. Reuniões com mais
de 5 pessoas passaram a ser proibidas - até festas de aniversário
e de casamento foram prejudicadas.
Em agosto de 1942 um navio mercante brasileiro
foi afundado por um submarino alemão perto de Belém
e a população local, como vingança, destruiu
e incendiou casas de imigrantes alemães, italianos e japoneses.
A título de fiscalizar e "proteger" os imigrantes,
o governo federal resolveu recolher em Acará (atual Tomé-Açu,
PA) todos os japoneses, alemães e italianos que residiam
na região norte do país. As perseguições
aos imigrantes alastraram-se também no litoral do Paraná,
pelo interior de São Paulo e de Mato Grosso. Por serem orientais,
portanto facilmente distingüíveis no meio da população
brasileira, os imigrantes japoneses foram os que mais sofreram ataques
e prejuízos com o preconceito popular e com a perseguição
governamental. Mas é da sabedoria universal que não
existem "guerras justas", e que em toda guerra o que realmente
existe é um arrazoado de conveniências que são
ocultadas da opinião pública. Apesar da postura antinipônica,
o governo brasileiro não apenas tolerava como estimulava
imigrantes japoneses a cultivarem o algodão, o bicho-da-seda
e a hortelã (menta). Atuando como intermediário na
exportação desses produtos para os Estados Unidos,
onde o algodão era usado na fabricação de uniformes,
a seda na fabricação de pára-quedas e a menta
era produto base da indústria química na fabricação
de explosivos e em sistemas de refrigeração de motores
de alta velocidade, o governo brasileiro também lucrava com
o conflito.
|
|
|
Tal situação de coisas
causou sentimentos e comportamentos totalmente díspares no
seio da comunidade nipo-brasileira. Antes da guerra, boa parte dos
imigrantes achava que após anos ou décadas no Brasil
não podiam agir como parasitas, que sugam o melhor que a
terra dá para depois irem embora. Em 1939, Shungoro Wako
escreveu: "Recordemos que nós já vivemos trinta
anos neste país e tivemos nesse espaço de tempo, o
sacrifício de vida de homens, mulheres, velhos e crianças
(...). Regressar ao nosso país de origem, abandonando estas
sepulturas não representa cumprir um dever para com nossos
antepassados (...). Então, contribuir com o nosso sangue
misturado ao dos brasileiros , introduzindo nossas boas tradições,
(...) encontraremos o verdadeiro significado da nossa imigração
(...), devemos trabalhar com todas nossas forças até
o dia do nosso sepultamento nesta terra, orando pela prosperidade
de nossa pátria e fazer dos nossos filhos bons brasileiros,
capazes de servir ao Brasil". Entretanto, o sonho de que o
Brasil como uma terra receptiva e rica em oportunidades foi rapidamente
destroçado pela agressiva atitude antinipônica dos
brasileiros. Muitos imigrantes passaram a querer retornar ao Japão
ou até emigrar para a Manchúria ou a Coréia,
então sob controle japonês. O próprio Wako,
em 1940, mudou de opinião publicando um artigo no qual ele
passou a defender a reemigração para a Ásia.
Em 1942 as relações diplomáticas entre o Brasil
e o Japão foram rompidas, e a retirada dos representantes
do governo japonês deu aos imigrantes a consciência
de que eram "súditos abandonados" à própria
sorte num país que não os queria.
CAOS E SUPERAÇÃO
Como visto anteriormente, na intenção
de manter os "súditos do Eixo" sob vigilância
e controle, o governo brasileiro proibiu a publicação
de jornais em japonês. Tal medida fez com que os imigrantes,
na maioria com conhecimentos limitados de português, fossem
privados de informações corretas sobre o que ocorria
tanto no Brasil como o exterior, em especial sobre o desenrolar
dos acontecimentos da guerra. Vivendo quase à margem da sociedade
devido às medidas de perseguição aos imigrantes
das nações inimigas, a comunidade nipo-brasileira
tinha esperança que sua situação melhorasse
se o Japão vencesse a guerra. Haviam imigrantes, entretanto,
que diziam "quando" - e não "se" - o
Japão vencer a guerra.
|
|
|
Em 1944 o conflito na Europa já
dava sinais de arrefecimento, mas no Pacífico batalhas sangrentas
ainda eram travadas entre tropas americanas e japonesas. A desinformação
propiciou o surgimento de dois grupos ideológicos distintos
dentro da comunidade de imigrantes: os kachigumi ("vitoristas",
que acreditam que o Japão venceu a guerra) e os makegumi
("derrotistas", que acreditam que o Japão perdeu
a guerra). Os kachigumi eram um grupo que reunia imigrantes com
formação militar, extremistas paranóicos ao
ponto de considerar patrícios que acreditassem que o Japão
pudesse perder a guerra como traidores, realizar atentados para
intimidar aqueles que acreditassem ser colaboradores dos inimigos
e de agir sem qualquer escrúpulo, falsificando de notícias
a papel-moeda. Os primeiros sinais do problema surgiram quando várias
plantações de menta e casas de processamento de bichos-da-seda
de imigrantes japoneses foram destruídas. As autoridades
policiais descobriram que outros imigrantes japoneses haviam sido
os autores das depredações, mas menosprezaram o ocorrido
(os agricultores e sericultores atacados eram considerados traidores
por produzirem em benefício dos inimigos do Japão).
Em 1945, quando o Japão se rendeu após os bombardeios
atômicos de Hiroshima e Nagasaki, circulou na comunidade nipo-brasileira
uma notícia falsa, com fotos dos representantes japoneses
no encouraçado americano Missouri, afirmando serem cenas
da rendição americana ao Japão publicadas no
jornal "A Tribuna" de Santos de 16 de setembro.
|
|
|
Confusa e malinformada devido aos anos
de "apagão jornalístico" imposto pelo governo
brasileiro, boa parte da comunidade de imigrantes passou a acreditar
na propaganda vitorista, e os kachigumi se transformaram num grande
movimento organizado, auto-denominado Shindo Renmei (Liga do Caminho
dos Súditos), que em poucos meses conseguiu congregar mais
de cem mil pessoas. Em outubro de 1945 iniciou-se um movimento através
da Cruz Vermelha Brasileira, com a participação de
lideranças esclarecidas da comunidade nipo-brasileira, para
conscientizar os imigrantes da derrota do Japão na guerra.
A confrontação ideológica causou uma onda de
atentados terroristas da Shindo Renmei. De março de 1946
a janeiro de 1947 ocorreram uma série de assassinatos e tentativas
de homicídio, tendo como alvo imigrantes que apoiaram o movimento
derrotista - foram mais de 100 ocorrências e 23 mortes no
estado de São Paulo. Imigrantes estelionatários aproveitaram-se
da desinformação e do caos e aplicaram golpes em seus
patrícios, como o "conto da passagem" (venda de
passagens marítimas falsas de volta ao Japão) e o
"conto do iene" (venda da moeda japonesa aa preços
altos quando, na verdade, o iene se encontrava totalmente desvalorizado
com a derrota do país na guerra). O medo e a desconfiança
instalou-se na comunidade.
|
| |
|
|
|
|
Todos
os direitos autorais ,textos, imagens , obras ou criações
de qualquer natureza disponibilizadas neste site, pertencem
à www.riachogrande.net ou a terceiros que autorizaram o
uso de sua propriedade intelectual e de imagens.
Sendo assim, é terminantemente vedada a distribuição,
representação, publicação, uso comercial e/ou
utilização de tais materiais, no todo ou em parte, sem a
citação da fonte utilizada.
A violação destes direitos é
crime, e seu infrator está sujeito às penalidades
legais previstas nas Leis 9.610/98 e 9.279/96 e no art. 184 do Código
Penal Brasileiro, bem como ao pagamento de indenização pelos
prejuízos causados. |