Prefeitura de São Bernardo reformará os
dois centros de coleta seletiva

 

Foto:Mamedio

Secretaria de Obras é responsável pela revitalização dos espaços municipais, mas que são gerenciados por duas associações de ex-catadores de rua

Com investimento em torno de R$ 400 mil, a Prefeitura de São Bernardo fará a reforma dos dois Centros de Ecologia e Cidadania (CECs) de recolhimento de materiais recicláveis, um localizado no bairro Assunção e o outro na Vila Vivaldi. Os espaços são municipais, mas gerenciados por duas associações legalizadas de ex-catadores de rua e do extinto lixão do Alvarenga, fechado em julho de 2001 pela administração, denominadas Refazendo e Raio de Luz. Os dois processos estão em fase final de licitação para contratação das empresas. A partir do início das obras, que não serão realizadas simultaneamente, o prazo previsto de entrega é de seis meses.
De acordo com a Secretaria de Obras, responsável pelas revitalizações nos dois centros, o processo mais adiantado é o do bairro Assunção, ou seja, da Associação de Catadores Refazendo. "Acredito que em maio comecemos a reforma geral na edificação", afirma o arquiteto Rogério Engelmann, diretor do Departamento de Projetos e Obras Públicas de São Bernardo. Entre as benfeitorias, estão a reforma e a ampliação da cobertura existente (mais 107 m² para o trabalho de triagem dos materiais); pintura geral, instalações elétrica e hidráulica e reforma dos vestiários e dos sanitários, que serão devidamente adequados às pessoas com deficiência. A área útil do terreno é de 1.000 m².
Na Vila Vivaldi, onde funciona a Associação de Catadores Raio de Luz, está prevista a reforma geral do espaço (refeitório, vestiários e sanitários); pintura; revisão da parte elétrica; recuperação de pisos, esquadrias e cobertura e ampliação do telhado (200 m²). A construção de um depósito para armazenamento de alumínios, em área fechada de 25 m², integra o projeto. Outra benfeitoria será a instalação de uma balança para pesagem do material reciclado. A execução da obra também se dará em 180 dias (seis meses), a partir do início.
Os dois projetos arquitetônicos trazem, em comum, a construção de ecopontos em alvenaria para a separação do lixo reciclável, com revestimento interno em azulejo e pontos de água para lavagem e ralos para drenagem. Além da reforma de área para separação de materiais, com ampliação e revisão dos boxes de alumínio, metal, plástico, papelão, vidro e embalagens do pet (polietileno tereflalato) e longa vida (tetrapak) – cada espaço será revestido com azulejos na cor branca.
Independentes - Com diretorias distintas e eleitas pelos próprios integrantes a cada dois anos, as duas associações recolhem e fazem a triagem dos materiais recicláveis, como papéis, plástico, vidro, ferro e alumínio. O lixo doméstico ou industrial, depois de separado, é vendido pela Refazendo e pela Raio de Luz para as indústrias que investem em reciclagem. Além de ceder os espaços físicos, a Prefeitura montou toda a infra-estrutura para a coleta seletiva na cidade, inclusive oferecendo o maquinário (prensas), caminhões, uniformes e luvas para os associados.
Fundada em 6 de fevereiro de 2001, a Refazendo possui atualmente 43 associados, que representam cerca de 200 pessoas beneficiadas. "Dependendo da necessidade da casa, aumentamos o número de catadores para o trabalho de triagem", explica a presidente Francisca Maria Lima Araújo, 43 anos, que, em razão de desemprego, se sujeitou a viver por oito anos no ex-lixão do Alvarenga. "Com a reforma e o espaço adequado na Associação, pretendemos trazer mais gente para trabalhar na coleta seletiva e ampliar as parcerias", afirma. Atualmente, são cerca de 100 parceiros registrados.
Na Vila Vivaldi, a Associação de Catadores Raio de Luz, que existe desde 12 de fevereiro de 2001, são 34 associados – quatro oriundos do lixão do Alvarenga e 30 ex-catadores de rua. Do montante arrecadado, 10% são destinados às despesas dos dois centros. O restante é dividido entre os associados, de acordo com as horas trabalhadas – o horário de expediente é de segunda a sexta-feira, das 8h às 17h.

Foto:Mamedio
Nos dois Centros de Ecologia e Cidadania a dinâmica é a mesma. Os ex-catadores fazem a triagem final do lixo reciclável doado espontaneamente pela população, que é recolhido diariamente pela Prefeitura nos 203 ecopontos espalhados por bairros de São Bernardo, entre ruas, praças e escolas – por dia, são vistoriadas cerca de 100 lixeiras. "A Prefeitura doa o material reciclado para as duas associações", explica o engenheiro ambiental Adriano Luiz Prezia Carneiro, chefe da Divisão de Conservação e Serviços, órgão ligado à Secretaria de Serviços Urbanos, responsável pela ação. A quantidade mensal coletada de resíduo reciclável é de cerca de 180 toneladas, segundo o técnico. Ou seja, seis toneladas por dia, que representam 1%. No entanto, o total de lixo domiciliar gerado no município é cerca de 18 mil toneladas por mês.
Respeito - Além da contribuição da Prefeitura, as associações recebem ainda doação de empresas, escolas particulares, condomínios e cidadãos. Os próprios associados também buscam o lixo reciclável em locais da redondeza. "Aqui temos regras a cumprir, trabalhamos em equipe e temos uma renda mensal", afirma Simone Oliveira da Silva, 33 anos, hoje presidente da Associação Raio de Luz, mas que guarda na lembrança o trabalho sofrido, a sujeira e os dias embaixo de sol e chuva no ex-lixão do Alvarenga. "Lá, era um brigando com o outro por causa de lixo. A maioria indigente e sem documento. Aqui, conquistamos respeito", diz a mãe de seis filhos, entre 1 e 14 anos.
Foto:Mamedio
A recuperação da auto-estima dos ex-catadores de rua é fruto do trabalho realizado pela Seção de Geração de Renda, da Secretaria de Desenvolvimento Social e Cidadania (Sedesc), que presta assessoria na área social às duas associações. A história começa desde a mobilização e sensibilização dos ex-catadores até a sua organização enquanto associação formalizada e legalizada, inclusive com licença ambiental, de acordo com assistente social Maria Cristina Penchiari. Com um local adequado e seguro para o exercício da atividade, os associados foram beneficiados. Uma das grandes vantagens é que a associação negocia diretamente com a indústria. Dessa forma, elimina o intermediário. "Arrecadam mais, separam o material reciclado, negociam em quantidade e conseguem preço mais justo", diz.
Para Maria Cristina, a reforma dos dois centros beneficiará o trabalho dos ex-catadores de rua. "Com a melhora dos espaços físicos, as condições de armazenamento dos materiais, como o papelão, ficarão ideais", afirma.

Lixo e Cidadania - Pela Prefeitura de São Bernardo, o trabalho social junto aos catadores de rua começou em 1996. Porém, o Programa Lixo e Cidadania foi implementado em 1998 pela Secretaria de Habitação e Meio Ambiente (Shama), além da Secretaria de Desenvolvimento Social e Cidadania (Sedesc) e Serviços Urbanos (SU), idealizado fundamentalmente para colocar fim ao lixão do Alvarenga. As atividades do lixão foram encerradas em julho de 2001, com a erradicação do trabalho infantil e a criação de opções de trabalho digno para dezenas de famílias que ali viviam. Em 2000, o sistema de coleta seletiva foi introduzido pela administração.
Após dez anos de execução do programa, os resultados alcançados pelo trabalho desenvolvido dentro da política pública da Prefeitura são relevantes para as cerca de 90 famílias que viviam no extinto lixão: resgate da auto-estima; capacitação técnica, qualificação e requalificação para o trabalho coletivo e inclusão de crianças e adultos no sistema municipal de ensino. Outro benefício foi o apoio técnico para formação de duas associações de ex-catadores de rua, que possibilitou a criação de dois centros de ecologia e cidadania voltados para reciclagem de material, gerando dignidade, autonomia e renda para essa população.
 


 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
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